

O que inicialmente parecia ser mais um caso de violência em uma estrada do interior baiano acabou se transformando em uma das fraudes securitárias mais incomuns já analisadas pela Justiça. Anos após relatar ter sido vítima de criminosos durante um suposto assalto, um servidor público foi condenado por arquitetar um plano para receber uma indenização milionária de seguradoras.
O caso envolve Vanderley dos Santos Gomes, morador do município de Amélia Rodrigues, na Bahia. Conforme apurado durante a investigação, ele contratou, em um curto intervalo de tempo, quatro apólices de seguros de vida e acidentes pessoais que previam pagamentos elevados em caso de invalidez permanente.
Poucas semanas depois das contratações, Vanderley comunicou às autoridades que havia sido atacado durante a madrugada em uma estrada da zona rural de São Gonçalo dos Campos. Segundo a versão apresentada na época, criminosos teriam o rendido e provocado a amputação de seu pé direito.
Entretanto, a narrativa passou a ser questionada à medida que surgiam elementos considerados incompatíveis com a dinâmica de um assalto comum. A rápida solicitação das indenizações, somada ao valor expressivo dos seguros contratados recentemente, despertou a atenção dos sistemas de monitoramento das empresas envolvidas.
As suspeitas deram origem a uma investigação detalhada conduzida com apoio de perícias técnicas. Os laudos produzidos ao longo do processo indicaram que a lesão não apresentava características compatíveis com a violência descrita pelo servidor. Especialistas concluíram ainda que o procedimento de amputação demonstrava conhecimento técnico, enfraquecendo a versão de que o ferimento teria sido provocado durante uma ação criminosa.
Outro fator considerado decisivo foi a sequência temporal dos acontecimentos. Para os magistrados, a contratação simultânea de diversas apólices, seguida da mutilação pouco tempo depois, evidenciou uma estratégia voltada à obtenção indevida de recursos das seguradoras.
A Justiça entendeu que houve tentativa de fraude para recebimento das indenizações previstas nos contratos. Com isso, Vanderley foi condenado por estelionato. Após o trânsito em julgado da ação, quando não há mais possibilidade de recursos, ele iniciou o cumprimento da pena determinada judicialmente.
A defesa buscou reverter a decisão e sustentou que não existiam provas suficientes para demonstrar que o servidor teria provocado a própria lesão ou planejado o esquema. Os argumentos, porém, não convenceram os desembargadores responsáveis pela análise do recurso.
Ao manter a condenação, o Tribunal de Justiça da Bahia destacou que o conjunto de provas reunido ao longo do processo era consistente e incluía documentos das seguradoras, exames periciais, registros médicos e depoimentos colhidos durante a investigação.
Além da pena imposta, o caso ganhou repercussão por evidenciar os mecanismos utilizados pelas seguradoras para identificar tentativas de fraude. Segundo representantes das empresas envolvidas, o compartilhamento de informações e a atuação integrada dos setores de inteligência foram fundamentais para impedir o pagamento das indenizações milionárias solicitadas pelo servidor.
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